Jociane Francisca Nunes
Tesoureira do IHPF
O apagamento histórico das experiências e contribuições da população negra ainda marca grande parte dos registros históricos brasileiros. Em muitos arquivos, manuais e livros didáticos, as trajetórias, sociabilidades e práticas culturais da população negra aparecem de forma fragmentada ou permanecem silenciadas, o que dificulta uma compreensão mais ampla sobre o seu papel na formação das sociedades e das identidades locais, como é o caso de Passo Fundo.
A partir desse contexto, nasceu o projeto “Vidas Negras: memórias da escravidão, liberdade e pós-emancipação no norte do Rio Grande do Sul”, que busca contribuir para preencher essa lacuna por meio da valorização das memórias e histórias da comunidade negra de Passo Fundo. Desenvolvido a partir de um percurso de pesquisa e mobilização realizado pelo Instituto Histórico de Passo Fundo (IHPF), pelo Arquivo Histórico Regional (AHR), pelo curso de História e pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (PPGH-UPF), o projeto busca registrar e valorizar histórias ainda pouco conhecidas, contribuindo para a construção de uma memória mais diversa e inclusiva sobre o passado e o presente de Passo Fundo.

Por meio de diferentes iniciativas, como os registros de memórias gravadas com membros da comunidade negra, a coleta, o armazenamento e a disponibilização de acervos, bem como a realização de exposições e rodas de conversa, o projeto busca dar visibilidade a trajetórias historicamente invisibilizadas e ampliar as narrativas sobre a constituição social e cultural da cidade. A produção de documentação oral, a partir de relatos de integrantes da comunidade negra local, amplia a compreensão sobre as realidades históricas vividas por essas pessoas. A coleta, organização e catalogação de acervos vinculados às trajetórias da população negra de Passo Fundo, bem como a produção de textos, constituem formas de valorizar personagens, entidades e movimentos relacionados à comunidade negra, além de divulgar e ampliar o acesso a essa documentação.
Entre as atividades do projeto está a exposição “Vidas Negras”, que leva o público a reconhecer presenças, trajetórias e histórias da população negra. Ao dar visibilidade a essas narrativas, a mostra busca valorizar esses sujeitos e sua contribuição para a constituição de Passo Fundo, destacando experiências, práticas culturais e vínculos comunitários que marcaram diferentes tempos da cidade. Nesse sentido, a exposição propõe a escuta, a partilha e o reconhecimento, dando rosto, voz e nome a diferentes trajetórias e reafirmando que a história de Passo Fundo é inseparável da história da população negra. Mais do que apresentar o passado, a mostra também reúne trajetórias de pessoas ainda vivas que continuam construindo a história local. Agradecer e reconhecer aqueles que vieram antes é fundamental, mas valorizar as trajetórias daqueles que ainda estão aqui entre nós é igualmente importante.
“Vidas Negras” foi inicialmente concebida para ser apresentada ao público em uma única temporada. No entanto, devido à sua relevância educacional e à sua importância para a comunidade negra, surgiram solicitações para que a exposição circulasse por outros espaços. Assim, a mostra tornou-se itinerante, ampliando o alcance do projeto e contribuindo para a incorporação de novos acervos, histórias e trajetórias. Ao visitar escolas, universidades, clubes sociais, eventos e espaços públicos, a exposição também promove momentos de troca de conhecimentos entre a equipe do projeto e o público, além de criar espaços de diálogo com pessoas negras de Passo Fundo. Essas atividades contribuem para o fortalecimento da identidade étnica e racial dessa população, por meio do compartilhamento de saberes e de vivências pessoais e profissionais dos convidados. Suas trajetórias fortalecem a representatividade e permitem que muitas pessoas se reconheçam nas narrativas apresentadas, sentindo-se inspiradas pelas vidas que integram a exposição.
Ainda há muito a registrar, divulgar, estudar e consolidar sobre a história e a cultura negra local. No entanto, as atividades já desenvolvidas abrem caminhos para a construção de um futuro mais inclusivo, diverso e igualitário, no qual sujeitos negros tenham suas narrativas registradas e sintam-se representados e pertencentes a esta cidade que ajudaram a construir.

Exposição “Vidas Negras” na Galeria Estação da Arte, em novembro de 2025. Fografia Maria Eduarda dos Santos.
