Vidas Negras em foco: Memória, reconhecimento e valorização da população negra em Passo Fundo

Jociane Francisca Nunes

Tesoureira do IHPF

O apagamento histórico das experiências e contribuições da população negra ainda marca grande parte dos registros históricos brasileiros. Em muitos arquivos, manuais e livros didáticos, as trajetórias, sociabilidades e práticas culturais da população negra aparecem de forma fragmentada ou permanecem silenciadas, o que dificulta uma compreensão mais ampla sobre o seu papel na formação das sociedades e das identidades locais, como é o caso de Passo Fundo.

A partir desse contexto, nasceu o projeto “Vidas Negras: memórias da escravidão, liberdade e pós-emancipação no norte do Rio Grande do Sul”, que busca contribuir para preencher essa lacuna por meio da valorização das memórias e histórias da comunidade negra de Passo Fundo. Desenvolvido a partir de um percurso de pesquisa e mobilização realizado pelo Instituto Histórico de Passo Fundo (IHPF), pelo Arquivo Histórico Regional (AHR), pelo curso de História e pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (PPGH-UPF), o projeto busca registrar e valorizar histórias ainda pouco conhecidas, contribuindo para a construção de uma memória mais diversa e inclusiva sobre o passado e o presente de Passo Fundo.

Registro de um baile de debutantes realizado no Visconde do Rio Branco, na década de 1970. FotoMemória Odorico José Ribeiro. Acervo Instituto Histórico de Passo Fundo.

Por meio de diferentes iniciativas, como os registros de memórias gravadas com membros da comunidade negra, a coleta, o armazenamento e a disponibilização de acervos, bem como a realização de exposições e rodas de conversa, o projeto busca dar visibilidade a trajetórias historicamente invisibilizadas e ampliar as narrativas sobre a constituição social e cultural da cidade. A produção de documentação oral, a partir de relatos de integrantes da comunidade negra local, amplia a compreensão sobre as realidades históricas vividas por essas pessoas. A coleta, organização e catalogação de acervos vinculados às trajetórias da população negra de Passo Fundo, bem como a produção de textos, constituem formas de valorizar personagens, entidades e movimentos relacionados à comunidade negra, além de divulgar e ampliar o acesso a essa documentação.

Entre as atividades do projeto está a exposição “Vidas Negras”, que leva o público a reconhecer presenças, trajetórias e histórias da população negra. Ao dar visibilidade a essas narrativas, a mostra busca valorizar esses sujeitos e sua contribuição para a constituição de Passo Fundo, destacando experiências, práticas culturais e vínculos comunitários que marcaram diferentes tempos da cidade. Nesse sentido, a exposição propõe a escuta, a partilha e o reconhecimento, dando rosto, voz e nome a diferentes trajetórias e reafirmando que a história de Passo Fundo é inseparável da história da população negra. Mais do que apresentar o passado, a mostra também reúne trajetórias de pessoas ainda vivas que continuam construindo a história local. Agradecer e reconhecer aqueles que vieram antes é fundamental, mas valorizar as trajetórias daqueles que ainda estão aqui entre nós é igualmente importante.

“Vidas Negras” foi inicialmente concebida para ser apresentada ao público em uma única temporada. No entanto, devido à sua relevância educacional e à sua importância para a comunidade negra, surgiram solicitações para que a exposição circulasse por outros espaços. Assim, a mostra tornou-se itinerante, ampliando o alcance do projeto e contribuindo para a incorporação de novos acervos, histórias e trajetórias. Ao visitar escolas, universidades, clubes sociais, eventos e espaços públicos, a exposição também promove momentos de troca de conhecimentos entre a equipe do projeto e o público, além de criar espaços de diálogo com pessoas negras de Passo Fundo. Essas atividades contribuem para o fortalecimento da identidade étnica e racial dessa população, por meio do compartilhamento de saberes e de vivências pessoais e profissionais dos convidados. Suas trajetórias fortalecem a representatividade e permitem que muitas pessoas se reconheçam nas narrativas apresentadas, sentindo-se inspiradas pelas vidas que integram a exposição.

Ainda há muito a registrar, divulgar, estudar e consolidar sobre a história e a cultura negra local. No entanto, as atividades já desenvolvidas abrem caminhos para a construção de um futuro mais inclusivo, diverso e igualitário, no qual sujeitos negros tenham suas narrativas registradas e sintam-se representados e pertencentes a esta cidade que ajudaram a construir.

Exposição “Vidas Negras” na Galeria Estação da Arte, em novembro de 2025. Fografia Maria Eduarda dos Santos.

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