Fabiana Beltrami da Silva
Vice-Presidente do IHPF
A incorporação da Coleção Telmo Dossa no acervo do Instituto Histórico de Passo Fundo revela sua importância não apenas como registro de uma trajetória individual, mas como peça-chave para a própria história visual da cidade. Entre as fotografias reunidas, destacam-se imagens que permitem avançar na identificação da autoria de vistas urbanas amplamente conhecidas, até então anônimas. A possível relação entre o avô de Telmo, Giuseppe Dozza, e o fotógrafo Pietro Da Ronch abre um caminho interpretativo decisivo: imagens presentes no Álbum apresentam o carimbo do fotógrafo, confirmando sua atuação e sugerindo que parte dos registros, especialmente aqueles que retratam a cidade, possam ser de sua autoria.
Essa hipótese ganha ainda mais relevância quando consideramos que determinadas vistas de Passo Fundo, posteriormente transformadas em cartões postais pela Livraria Nacional, não possuíam atribuição conhecida. A presença, no conjunto, de versões originais dessas imagens, anteriores à edição em formato postal, permite não apenas identificar seu possível autor, mas também refinar sua datação.

Vista do prédio da Intendência Municipal de Passo Fundo. A fotografia fazia parte do Álbum de Giuseppe Dozza. Coleção Telmo Dozza. Acervo Instituto Histórico de Passo Fundo.

Vista da rua do Commercio, entre as quadras da rua Bento Gonçalves e avenida General Netto. A fotografia fazia parte do Álbum de Giuseppe Dozza. Coleção Telmo Dozza. Acervo Instituto Histórico de Passo Fundo.

Vista da avenida Brasil, no Boqueirão. A fotografia fazia parte do Álbum de Giuseppe Dozza. Coleção Telmo Dozza. Acervo Instituto Histórico de Passo Fundo.
Em um contexto no qual a atuação de fotógrafos no interior do Rio Grande do Sul, especialmente nas primeiras décadas do século XX, ainda é pouco documentada, a identificação de nomes, trajetórias e produções torna-se um desafio. A mobilidade desses profissionais e a ausência de marcas autorais nas imagens dificultam a atribuição de autoria, lacuna que o acervo de Dozza ajuda a preencher. Ao preservar fotografias com indícios materiais, como carimbos e formatos originais, o conjunto possibilita reconstruir redes de sociabilidade, circulação de imagens e práticas profissionais ligadas à fotografia em Passo Fundo. Mais do que isso, as imagens reunidas por Dozza registram um momento específico da cidade, permitindo observar suas transformações urbanas, seus espaços de circulação e os modos de representação do ambiente urbano. Ao serem reinterpretadas no presente, essas fotografias deixam de ser apenas lembranças privadas e passam a integrar o patrimônio documental do município, contribuindo para a construção de uma memória coletiva. Nesse processo, o gesto individual de colecionar ganha uma dimensão pública: aquilo que foi reunido como expressão de uma experiência pessoal transforma-se em fonte para a história de Passo Fundo.
Assim, a importância do acervo reside justamente nessa capacidade de articular escalas diferentes: do indivíduo à cidade. Ao permitir a identificação de autores, a datação de imagens e a compreensão das práticas fotográficas locais, o conjunto não apenas preserva o passado, mas produz novas possibilidades de conhecimento. Ele evidencia como acervos privados, quando incorporados a instituições de memória, podem alterar o que se sabe sobre a história urbana, preenchendo lacunas, levantando hipóteses e oferecendo novas bases para a pesquisa histórica.



Cartões Postais da Livraria Nacional. Acervo Instituto Histórico de Passo Fundo.
